Transgressão. - conto

6/2/2007
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"...Como eu disse, ele havia se tornado um homem difícil. Antes ele era disciplinado e correto, sempre vestido impecávelmente com seu terno preto e bengala com pomo de bronze. Mas com a doença, havia mudado muito. Não vestia mais seus ternos, e andava em casa com seus pijamas, ou usando alguma roupa velha qualquer. Era um homem culto, e nunca perdeu este hábito, mas sua biblioteca não tinha mais a velha organização de antes. Seus livros se espalhavam abertos sobre a mesa de leitura, suas páginas manchadas aqui e ali por respingos de diversas bebidas ou cinzas de cigarros. Já andava com alguma dificuldade, mas mesmo assim insistia em fazer seus passeios sozinho pelo parque próximo à sua casa. Certa vez caiu enquanto andava no parque e, para agravar sua situação, quebrou a perna. Aqueles foram dias difíceis, mas confesso que viajar para Santa Bárbara para cuidar de meu pai me distraía um pouco das coisas de São Paulo e de minha própria casa. Não acho que sua avó sentia minha falta nas minhas longas ausências motivadas pelos cuidados com meu pai. Seu bisavô, por outro lado, parecia feliz em me ver. Conversávamos um bocado, mas raramente sobre coisas pessoais. Não me sentia muito à vontade com ele, mesmo agora que ele deixara de ser o homem ríspido que havia me educado. Sentia-me responsável por ele e tentava zelar por sua saúde e bem estar, e os seus crescentes excessos me preocupavam. Mesmo doente, ele bebia um bocado – sempre bebidas caras, importadas, sofisticadas – e fumava sem parar. Quando os médicos o admoestaram que isso apenas piorava seu estado de saúde e abreviava ainda mais sua vida, era frequentemente grosseiro com eles."


Este é um trecho de meu novo conto, chamado Transgressão.
Depois de muito tempo sem escrever um conto novo que se prezasse, este me surgiu durante um almoço de família, enquanto conversava com minhas tias avós. Alguns de seus temas já me assombravam, querendo sair e virar narrativa, há algum tempo -- certo e errado, egoísmo e liberdade, a loucura e as mágoas familiares e, sobretudo, a imperfeição e as contradições do ser humano real. Saiu tudo em um jorro enquanto eu o escrevia, e me sinto leve e limpo agora.

Há mais um conto no forno, mas não há mais tanta pressa e angústia em terminá-lo. Agora que comecei, as histórias começam novamente a fluir.

É com esta alegria que partilho com vocês este conto, que não é perfeito nem correto, mas é muito humano.


Para ler o conto na íntegra, clique no botão de DOWNLOAD para baixar o arquivo .DOC de Transgressão.


* a foto utilizada para ilustrar o conto foi remixada a partir da foto BLOW, publicada por =hellfirediva no DeviantART.