Como não morrer de tédio em Brasília

2/11/2007

Diz-se quem em Brasília não há nada para se fazer, e que por isso as pessoas bebem. É verdade. As pessoas bebem bastante em Brasília. E ainda assim, por vezes parece até que todo mundo preferiu passar a sexta-feira à noite em casa vendo filmes alugados. Brasília pode ser uma cidade tediosa, mas seria injusto dizer que os brasilienses não dão seu jeitinho. Talvez a dificuldade de se arranjar o que fazer possa ser razoavelmente explicada pela estratificação das opções de diversão -- alguma coisa a ver com aquilo que o pessoal chama de tribos urbanas.

Brasília tem muitos bares, dos botecões 'pé sujo' onde não se pode comer (sob risco de vida!) e se encontra cerveja por dois reais (como o lendário e mal falado Desfrut, na 313 sul), até os botecos de 'playboy', onde uma decoração pretensamente bacaninha se une a preços realmente salgados. É a estes segundos que o pessoal mais abonado cheio de pretensão gosta de ir. Bons exemplos deste tipo de bar são o Azeite de Oliva e o Concentração, ambos na Asa Sul. Há também, perto da UnB, o chamado "Quadrilátero da Bebida" -- um bloco comercial repleto de bares baratos freqüentados por estudantes e jovens artistas. No "quadrilátero" estão localizados os famosos bares Pôr-do-Sol, Meu Bar e Capela, que costumam estar lotados quase todos os dias.

Existem alguns bares 'intermediários' que caíram no gosto dos jovens, como o da distribuidora de bebidas Piauí. A cerveja não é cara e por lá se encontra todo tipo de gente; jovens descoladinhos mesa a mesa com pagodeiros, hippies reggaeiros, velhos motoqueiros, bebedores em geral, homens e mulheres de meia-idade (bons pagadores de cervejas gratuitas para garotinhos e garotinhas que agüentem seu papo), gente de todas as idades. Ninguém pode negar que na capital do Brasil tem bar para todos os gostos, bolsos e preconceitos.

Para além dos bares, outra coisa que o brasiliense adora fazer, quando não está vendo filmes alugados em casa, é ir ao cinema. O Pier 21, na Avenida das Nações, de frente para o Lago, é o grande point do público de cinema mais geral. Nos finais de semana, a fila é quilométrica, são várias salas passando as últimas estréias do cinema hollywoodiano e o último filminho brasileiro da moda. É muito caro, como quase tudo em Brasília, mas as salas são realmente boas. O Pier 21 é um espaço comercial a céu aberto com ares de shopping center (revisitando o hoje decadente "Gilberto Salomão" da geração anterior) e conta com outras atrações para a vida noturna. Logo na entrada, existem dois bares que ficam bastante cheios com o pessoal mais velho, em geral, mas que gostam de parecer ser diversão para todos. Há um bocado de bares e restaurantes que valem à pena no Pier 21, desde que se tenha dinheiro para freqüentá-los.

Os cinemas são também responsáveis pela lotação dos shoppings da cidade. Crianças, adolescentes, famílias e casais freqüentam os shoppings para ir ao cinema ou por vezes somente para 'dar uma volta' e olhar vitrines, muitas vezes sem comprar nada. É, quando o tédio aperta, o brasiliense se vira. A cidade conta com mais de 10 shoppings (sendo talvez uma das cidades com mais shopping centers per capita no Brasil)!!!

Para um público de cinema mais específico -- o pessoal mais ligado no cinema alternativo e fora-de-circuito, os p.i.m.b.a.s, pseudocults ou aspirantes a produtores de cinema que ainda não migraram para o Rio ou para São Paulo -- Brasília oferece cinemas como o da Academia de Tênis, o Cine Brasília (o último cinema de rua da capital a resistir à sanha imobiliária de Edir Macedo), e o do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), locais que também oferecem exposições e shows interessantes. Aliás, a parte cultural da cidade têm crescido muito, contando inclusive com o Açougue Cultural T-Bone, local que promove shows grátis e eventos afins.

O brasiliense também gosta de dançar. Em geral o roteiro da galera inclui uma ida ao bar para um 'esquenta' antes da festa, como em qualquer outro lugar do Brasil. Mas aqui os lugares têm públicos mais específicos -- você bebe no mesmo bar da sua "galera" e depois vai para a mesma balada da sua "galera", sem grandes promiscuidades estilísticas ou musicais. Há lugares que tradicionalmente têm programações específicas em certas noites, como as noites de samba ou as noites de forró -- a exemplo do Arena, no Setor de Clubes. Existem as boites de 'playboys' e 'patys', onde se pode ouvir desde música eletrônica mais 'mainstream', até funk e música pop. O Gates Pub, tradicionalíssimo, tem noites temáticas que vão do dance ao rock alternativo (como se pode ver nesta matéria feita por Daniel Cariello para o Overblog). A balada underground do pessoal do rock alternativo conta com dois nomes fortes, o Landscape (no Lago Norte) e o Espaço Galleria, no Conic. Há também a Orange, no Lago Sul, que havia sido um importante nome do circuito da música eletrônica e hoje em dia está mais voltada para a música indie. Existe também o circuito do pessoal do trance, que se sustenta em raves em clubes ou fazendas nas áreas circundantes da cidade.

Para quem não é de festa (ou para o dia em que não tem nenhuma festa prometendo ser boa), é sempre possível aliar a cerveja do final de semana com um boa partida de sinuca. A capital possuí desde lugares cheios de mesas tortas e clima suspeito, como o Barzão (na 504 sul), até locais como o Strangers Snooker Bar (cujo dono era jogador profissional) e que tem um público variado. Na falta de tudo, o pessoal se reúne para comprar bebidas e passar a noite ouvindo o som do carro e batendo papo na Praça dos Três Poderes, atrás da Esplanada, coisa que a polícia não curte muito e tem tentado inibir. Outras opções incluem a casa vazia de alguém, a Ponte JK, e até mesmo beber na frente do supermercado ou na Pracinha da Palato (antiga pracinha do Rock and Roll).

Existem também alguns programas e passeios para quem aprecia o sol e a luz do dia, como uma ida ao Parque da Cidade ou ao Parque Olhos D'Água, ou um passeio na Feira Hippie da Torre de TV (os dois últimos foram tema de minhas recentes matérias para o Guia Overmundo). Para os brasilienses mais apaixonados ou excêntricos até mesmo um passeio entre os pilotis dos blocos das Asas Sul ou Norte já consiste em um programa "válido", mesmo que um tanto "silvícola".

Enfim, há muitas opções de diversão e entretenimento em Brasília, embora estas mesmas sejam um tanto extratificadas e nem sempre primem pela diversidade ou originalidade. A programação de teatro da cidade é quase sempre muito cara, e poucos são os brasilienses que costumam prestigiá-la. Acaba-se indo quase sempre aos mesmos bares ou às mesmas boates, aos mesmos cinemas, vendo as mesmas pessoas, fazendo os mesmos programas; enfim, vivendo nos "guetos sociais" que são tão habilmente estimulados pela distribuição social da cidade. É possível não se morrer de tédio em Brasília, mesmo que algumas pessoas digam que "lá também não se vive". Viver em Brasília é para quem gosta. Não tem jeito.



Lista de lugares citados na matéria (em ordem de citação):


Bares:

Desfrut - Fica no comércio local da 313 Sul. É um botecão "pé sujo" em todos os sentidos, desde a cerveja (você conhece a Santa Cerva?) barata servida em mesas de metal até as comidas que ficam mofando sobre o balcão. Dizem que seu banheiro feminino é localizado no centro da terra, logo ao lado da cozinha que é o próprio inferno. Como era de se esperar, não tem página na internet e muitos de seus freqüentadores nunca precisaram saber o que era um email.

Azeite de Oliva - Localizado na 403 Sul, é um dos bares com decoração bacaninha e preços um bocado salgados, igual a tantos outros do DF. Há quem diga que não há nenhuma diferença entre eles. É claro que há. A cor da parede muda um pouco de bar para bar, e as piadinhas do cardápio (salgado) e da decoração (geralmente imitando algo que já existe no Rio, São Paulo, Búzios, Floripa, etc...) são um pouco diferentes!

Concentração - Localizado na 209 Sul, é um bar bastante parecido com o Azeite de Oliva, sendo apenas um pouco mais novo e um pouco mais vermelho. Não encontrei nenhuma página do bar na internet.

Pôr-do-Sol - Um dos mais famosos bares do "quadrilátero da bebida", na 408 Norte. Não tem página na internet, mas quase qualquer pessoa que tenha sido universitária e com pouca grana no DF o conhece.

Meu Bar - Vizinho ao bar "Pôr-do-Sol" na 408 Norte, é quase parte indivisível deste (ou este primeiro, parte indivisível do Meu Bar. Tanto faz). Assim como seu bar irmão, não tem página na internet.

Capela - Fica também no "quadrilátero da bebida" e já foi tema de uma matéria da Ana Cullen aqui no Overmundo.

Distribuidora de bebidas Piauí - Localizada na 403 Sul (ao lado do Gate's Pub), é um point tradicional daqueles que querem beber cerveja barata em meio a todo tipo de gente. Não é recomendável confiar muito na cozinha do local, mas a cerveja é honestamente gelada. É claro que eles também não tem (ainda) uma página na internet.

Barzão - Localizado na 504 sul, à beira da sempre decadente via w3 sul, o Barzão abriga todo tipo de gente (ou todo tipo de gente que gosta de cerveja e sinuca, ambas baratas, e não se importa com os ambientes que freqüenta). O lugar é perigoso, e há realmente todo tipo de gente por lá, inclusive tipos bem desagradáveis e perigosos. Mas, por outro lado, é o melhor lugar para se jogar sinuca a 25 centavos a ficha enquanto se bebe cerveja barata.

Stranger's Snooker Bar - Com dois endereços, 513 Sul e 706 Norte, o Stranger's é por excelência o melhor lugar para os jogadores de sinuca sérios de Brasília. Não é um lugar que prima pela sofisticação, mas também não é um boteco. A cerveja tem preço honesto, as mesas -- bem conservadas -- valem o preço cobrado por seu uso e o ambiente e atendimento são bem agradáveis. Se o seu lance é sinuca, o Stranger's é o seu lugar.


Cinemas:

Cinemark (do Pier 21) - Salas excelentes, filmes famosos, preços exorbitantes.

Cine Academia (na Academia de Tênis) - Salas excelentes, público intelectualizado (ou pretensamente intelectualizado) e antenado, preços salgados e uma localização meio elitista. Vale a pena conhecer, mas não é para todo mundo.

Cine Brasília - O mais tradicional cinema de Brasília, sobrevivente da devastadora onda de transformação de cinemas em igrejas da rede de Edir Macedo. Há uma excelente matéria sobre o Cine Brasília aqui no Overmundo.

CCBB - Um dos melhores espaços para exibição de documentários e filmes de arte em Brasília. Bons preços, público bacana e coordenação da programação com exposições e eventos fazem do lugar uma grande pedida. Neste link você encontra informações sobre a programação de cinemas do CCBB.


Espaços Culturais:

Açougue Cultural T-Bone - Localizado comércio da 312 Norte. Como diz Daniel Cariello em sua matéria para o Overmundo sobre o T-Bone, "Era apenas um açougue, mas virou um importante espaço cultural da cidade.". Não consigo pensar em melhor forma de definir o lugar.


Espaços para Shows e Festas:

Arena - Localizado no Setor de Clubes Sul, o Arena é um espaço variado que serve a várias "tribos" da capital -- cada uma em seu dia certo, com uma freqüência até incomum (para Brasília) de "misturas tribais"

Gate's Pub - Tradicionalíssima casa noturna brasiliense (fica na 403 Sul, logo ao lado da distribuidora de bebidas Piauí) que toca desde o dance até jazz e bossa nova, passando pelo rock independente e pelos alternativismos vários que fazem a cena musical/festiva de Brasília.

Landscape Pub - Fica no Lago Norte. É lugar dos alternativos e "indies" de Brasília, independente de quais sejam suas alternativas. Esta matéria do Guia Overmundo fala mais sobre minha visão pessoal do lugar.

Espaço Galleria - Localizado no subsolo do Conic, o Espaço Galleria é um espaço de música independente que é ponto forte da cultura GLTTB de Brasília, e também ponto de encontro de várias tribos. As festinhas que rolam por lá são bem loucas. Se esta é a sua praia, vai fundo.

Orange - O velho reduto da cena eletrônica de Brasília fica no na altura da QI 11 do Lago Sul, no lendário centro comercial Gilbertinho (onde o Legião Urbana deu seu primeiro show). Hoje o espaço abriga algumas festinhas indies bacanas, mas é caro e pouco central. É um bom lugar para variar do circuito Galleria-Landscape.


Esta matéria, como você pode ver, não dá muitas respostas à questão abordada. Isso é plenamente proposital. Não estamos aqui para terminar a conversa, e sim para iniciá-la. Se você é de Brasília, ou conhece a cidade, este é um bom momento para manifestar o que você gosta de fazer em Brasília para não morrer de tédio. Diga os lugares aos quais gosta de ir, seus programas prediletos, e aquilo que você não gosta também. Diga se concorda ou discorda daquilo que eu disse. Vale tudo. A palavra agora está com vocês.

Vamos bater um papo sobre o que é viver e se divertir em Brasília, mesmo que seja só para afastar o tédio.




(Matéria escrita em colaboração com Patrícia Nardelli)